O filósofo holandês, Baruch de Espinosa, trocou uma extensa correspondência, ao longo de sua vida, com os principais intelectuais de seu tempo, de geômetras a barbeiros-cirurgiões. Estas cartas (por muitos estudiosos consideradas essenciais para a compreensão do pensamento do filósofo) até então estavam indisponíveis ao público brasileiro, no entanto a editora Martins Fontes juntamente com a professora de filosofia Marilena Chauí pretendem reverter essa situação: em setembro deve chegar às livrarias brasileiras o volume reunindo a correspondência completa do pensador holandês. Nossa redação conversou com os tradutores e teve acesso aos originais, desta feita, enquanto o livro não é lançado, oferecemos a vocês, em primeira mão, algumas dessas cartas.
Ao final da postagem o leitor encontrará um pequeno glossário de termos iídiches gentilmente elaborado pelo Rabino Berkowitz (sob a módica quantia de 50 reais por caractere).
CARTA Nº 3
(sem data; provavelmente entre agosto e setembro de 1661 – ou 1654)
Ao mui nobre e sábio Gottfried Leibniz
Ilustríssimo senhor,
Podeis julgar por vós mesmos quão grata é para mim vossa amizade, desde que vossa modéstia permita que vos volteis para vossas inúmeras qualidades – dentre as quais, nobre amigo, não está inclusa, infelizmente, vossa caligrafia. Deveis aprimorá-la urgentemente, do contrário será impossível continuarmos a correspondermo-nos. Recordai que mamãe lê toda correspondência que recebo – os hieróglifos (sic) de sua última carta, sobre as Mônadas, foram interpretados por mamãe como “gônadas”, o que quase lhe causou uma apoplexia e me deixou uma semana de castigo, impedido de brincar com meus postulados. Pedíeis também, em vossa epístola, que vos comunicasse o que penso sobre o infinito. Fá-lo-ei de bom grado, meu amigo.
A questão do infinito sempre pareceu dificílima para todos, até mesmo inextricável, porque rejeitaram a possibilidade de satisfazer-se com seu kike, ao invés de desperdiçarem suas vidas com estas discussões estéreis. A questão que realmente exige nosso empenho e lume é a que diz respeito a como conquistar o coração e o conatus da bela shiksa que conheci ontem. Mamãe e eu voltávamos de um tedioso Bar Mitzvah, quando minha rotunda progenitora expôs a necessidade de novas anáguas. Irritadiço (mamãe não mo permitira comer em demasia no Bar Mitzvah) a acompanhei a uma alfaiataria qualquer e foi lá, prudente amigo, em meio à chiffons, rendas e musselinas, que vi a bela gói (e que gracioso busto, meu – provavelmente – excitado amigo, tive ímpetos de penetrar-lhe o conatus). Felizmente mamãe nada percebeu – ela jamais permitiria que eu sofresse uma afecção, no baixo ventre, provocada por uma shiksa.
CARTA Nº 71
(Amsterdam, 20 de outubro de 1663)
Ao mui sábio e cultivado René Descartes
Meu excelente amigo,
Recebi duas cartas tuas, uma de 11 de setembro (que me foi entregue por nosso ébrio amigo, G. A. Heineken) e outra de 20 de março (enviada de Leyden por um pombo correio). Ambas me encheram de alegria, sobretudo porque compreendi que sou um filósofo superior a ti (aceitaste, finalmente, o fato de minha Ética figurar na lista dos mais vendidos, do The Netherlands Times, ao passo que teu fastidioso Discurso sobre o método para bem conduzir a razão na busca da verdade dentro da ciência recebeu apenas uma nota em um jornaleco parisiense – tão ínfima que comportou apenas o título de sua obra). Não esmoreças, aborrecido amigo, teu tratado revelou-se uma cura aos insones. Contudo preocupam-me algumas de tuas declarações.
Confessaste, na última epístola, que tens evitado, há algumas semanas, deixar o leito posto que duvidas da existência, não só de teu aconchegante quarto, como de tuas confortáveis pantufas. Afirmaste ainda que julgas que todas estas coisas não passam de falsas percepções, elaboradas por um Gênio Maligno, disposto a iludi-lo continuamente (“um gênio maligno, que é ao mesmo tempo sumamente potente e enganoso, empregue todo seu talento para lograr a mim. Vou acreditar que o céu, o ar, a terra, as cores, as figuras, os sons e todas as demais coisas externas são nada mais do que ilusões de sonhos, que esta criatura emprega para me iludir”). Consideradas as premissas por ti apresentadas, meu esquizofrênico amigo, concluo que tu não passas de um shkotz, um desatinado. Desconfio de que, durante tua estadia em minha querida Amsterdam, estiveste em um dos nossos afamados coffeeshops (mamãe me fez prometer que eu jamais poria os pés neste tipo de estabelecimento), onde exóticas ervas são consumidas, provocando o turvamento da razão, semelhante ao descrito por ti, meu lunático amigo.
Deixo-te agora na companhia de ton ami, Gênio Enganador, porque tenho importantes afazeres (lamento informá-lo, ilustre senhor, contudo a Holanda continua se mostrando mais do que uma percepção enganosa, infelizmente): prometi ajudar mamãe com os preparativos para o Chanukah.
1 Esta é, talvez, a carta mais importante da correspondência espinosana. Nela o filósofo refuta a teoria do conhecimento cartesiana, exposta nas Meditações.
Glossário
KIKE: diminutivo carinhoso para pênis.
SHIKSA: rapariga não judia.
SHKOTZ: doido, sem miolos.